Tradução de matéria do Die Zeit

Têm saído na imprensa internacional bastantes matérias sobre a não-vai-ter-copa no Brasil. Publicamos, aqui, mais uma. Embora cheia de equívocos, até os alemães perceberam que quase ninguém quer a copa no Brasil, a não ser aqueles que lucrarão com ela, seja materialmente, seja politicamente.

http://www.zeit.de/2014/22/fussball-wm-proteste

O mundo tem que passar por isso agora

No Brasil, país do futebol, não se vê surgir nenhuma verdadeira atmosfera de Copa do Mundo. Isso se dá pela maledicência internacional, mas também pelo que os brasileiros veem como mais importante. De Thomas Fischermann

DIE ZEIT Nº 22/2014 30. Mai 2014  20:54 Uhr

Deve-se dizer as coisas claramente: Os brasileiros estragaram a Copa do Mundo. Para si e para o resto do mundo. Os estádios, hotéis e integrações de transporte estarão, em certa medida, em funcionamento em três semanas, mas o humor está nesse sentido. Quase não se vê por esses dias circularem pessoas com a camisa nacional verde-amarelo, as decorações para a Copa do Mundo nas ruas são escassas e são antes o resultado de atos administrativos que de expectativa. Até ao lado do estádio da abertura em São Paulo surgiu um acampamento para os adversários da Copa do Mundo. “Não Vai ter copa” é o lema de luta de muitos manifestantes que em mais de 20 cidades foram às ruas na semana passada.

Pode-se entender isso tudo terrivelmente errado. A maioria dos brasileiros naõ tem absolutamente nada contra a Copa do Mundo. Eles tem algo sobretudo contra eles mesmos.

Os brasileiros mais sensíveis quase não podem suportar o quão impiedosamente seu país é visto na preparação para a Copa do Mundo pela mídia do mundo todo, e provavelmente também pelos visitantes da copa. A revista britânica “The Economist” estampou recentemente um foguete em forma de Cristo pouco antes de se chocar contra o solo, “Der Spiegel” publicou na capa uma bola em chamas como um meteorito caindo sobre o pão de açúcar, e a não mais totalmente pronta cobertura do estádio de abertura em São Paulo provocou manchetes irônicas ao redor do mundo. Não me importo com a copa. Há uma resposta tipicamente brasileira: Não tenho nada a ver com isso! Não me importo com a copa!

Qual o motivo para isso, que tão pouca febre de copa do mundo surja no Brasil, país do futebol?

Isso é apenas uma parte da história – pois o “não estou nem aí” não foi a única razão para a deficiente preparação para a Copa do Mundo.

Por mais que os brasileiros possam menosprezar as críticas de fora, desde junho do ano passado algo mudou essencialmente: A crítica à situação brasileira – à distribuição desigual de renda, por exemplo, aos excessos burocráticos e à corrupção, às condições precárias em escolas e hospitais, à falta de investimento e à violência policial – é feita pelos próprios cidadãos, e agora mais aberta do que nunca.

Há um ano os próprios brasileiros se espantaram com isso, que de repente milhões foram às ruas. Surgiu uma nova cultura de protestos e também uma nova cultura de debate político. Preocupações e expectativas são desde então claramente expressadas e os políticos se sentem obrigados a reagir a isso. Os motivos são muitos e a atenção do mundo para a Copa do mundo foi o menos importante deles. Os cidadãos das classes médias não se deixam mais ser coagidos em um estado autoritário e ser iludidos com promessas vagas para o futuro, com as quais os políticos conduziram o país durante muito tempo.

Ao mesmo tempo instam a classe-média baixa, recém-saída da pobreza, para melhorias, fora de seu papel tradicional como espíritos subservientes. Eles exigem maiores avanços econômicos, bem como serem ouvidos pelos políticos. Essa é a dinâmica que está por trás dos recentes protestos no Brasil.

Em outras palavras: Os brasileiros dão agora, em meio à maledicência e decepção internacional, um essencial passo para frente. O rápido crescimento econômico dos últimos anos, o qual seguirá adiante no mais tardar com o próximo boom de commodities, libertou as forças sociais.

Tanto o ambicioso alpinista do país quanto os insatisfeitos entre os mais ricos compreendem seu país agora como um canteiro de obras e o tão apregoado sucesso entre os países emergentes não mais como uma obviedade, mas como um projeto pelo qual eles devem lutar.

Como efeito colateral, os brasileiros agora vão presentear ao resto do mundo uma Copa do Mundo sem brilho. Dá para se confortar que isso acontece por uma boa causa.

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