“A polícia do Brasil tem um problema de violência” – matéria do Zeit

Publicamos mais uma matéria do jornal alemão Die Zeit, traduzida por um colaborador, que trata de temas relacionados à Copa do Mundo. Embora politicamente equivocada em diversos pontos e mesmo com alguns erros (de dados estatísticos, inclusive), reproduzimos a matéria sobre a atuação da polícia que mais mata no mundo.

 

http://www.zeit.de/sport/2014-05/brasilien-polizei-gewalt-wm

 

A polícia do Brasil tem um problema de violência

 

Nos protestos durante a Copa do Mundo, a polícia do Brasil tem um papel importante. Mas ela é mal treinada, mal paga e responsável por 2000 mortes por ano. De OLIVER FRITSCH e CHRISTIAN SPILLER
30. Maio 2014  16:57

 

Essa Copa do Mundo de futebol não será provavelmente nenhuma despreocupada festa da alegria. Já há um ano houve violência quando durante a copa das confederações quando um milhão de brasileiros em mais de 100 cidades foram às ruas para se manifestar contra os gastos com a copa do mundo e contra FIFA.  Onze mil policiais fizeram a segurança da final. Os jogadores de Brasil e Espanha puderam sentir do gramado o gás lacrimogêneo.
Se os ativistas brasileiros conseguirão trazer às ruas uma quantidade semelhante de pessoas é incerto, porém, é certo que ocorrerão ações. Atualmente ocorrem protestos praticamente diariamente nas cidades brasileiras.
A escalada da situação dependerá da polícia. A polícia brasileira é militarmente constituída e inclinada à violência. Há vários motivos para temer que ela contribua para mais uma escalada nas próximas semanas que para a segurança. Foram mais de 40 feridos durante a copa das confederações somente no Rio de Janeiro; em Brasília, mais de cem. A maioria ferida por balas de borracha da polícia. A ira dos manifestantes se dirigia também contra a violência policial.

“Mal treinada, pouca verba”
“Ano passado a polícia mostrou sua verdadeira face“, disse Dennis Pauschinger. Ele morou vários anos em São Paulo e trabalhou em uma iniciativa sem fins lucrativos, agora como doutorando ele pesquisa, no programa de doutorado em criminologia cultura e global de Hamburgo, sobre a segurança na Copa do Mundo.
A violência está enraizada na sociedade brasileira, diz ele, e é banalizada e tolerada. Os justiceiros são comuns. Uma unidade especial do Rio tem um logo com uma faca e duas pistolas atravessadas em uma caveira.
Essa cultura da violência impera na polícia, diz Pauschinger. Desde o fim da ditadura militar em 1985, o país se democratizou, eleições e liberdade de imprensa foram introduzidas. Porém, isso não alcançou toda a sociedade. Mesmo parte da polícia é exceção a esse desenvolvimento. “Os policias são mal treinados e ganham pouco”, disse ele, e arriscam suas vidas não somente nas incursões nas favelas. Alguns, além disso, são infiltrados em atividades criminosas, no tráfico de drogas.
No Brasil há duas polícias: a Estadual e a Federal, as quais em parte competem uma com a outra. À Polícia Federal corresponde a Polícia Alemã. A polícia estadual é uma unidade paramilitar e uma parte das forças armadas. Ela é subordinada ao Ministério do Interior (1). “A polícia brasileira sofre com a disputa da política”, diz Pauschinger.
70% dos brasileiros não confiam na polícia. Ela, entretanto, se sente incompreendida. Alguns se queixam de falta de valorização e relatórios injustos: Quase não se relata sobre os policiais assassinados, mas os crimes cometidos por policiais são sempre relatados em detalhes.
Segundo a anistia internacional a polícia brasileira é responsável por pelo menos duas mil mortes por ano (2). Um em cada dez assassinatos se volta sobre um policial. No ano de 2011, a taxa de mortes no Brasil alcançou 27,1 para cada 100 mil habitantes (na Alemanha: 0,8) e sequer 10% dos assassinatos foram esclarecidos.

Com capacetes de aço e metralhadoras
No entanto, esta não é uma razão para que os turistas da copa se preocupem com suas vidas, diz Pauschinger. A polícia direciona sua atenção sobre tudo para os nativos, especialmente homens jovens de pele negra. Os fãs de futebol, contudo, devem contar com a visão de policiais com capacetes de metal e metralhadoras dentro e fora dos estádios. O famoso batalhão de choque do Rio de Janeiro, um comando especial responsável pela contenção de distúrbios em manifestações, parece com o Robocop, incluindo armaduras corporais e máscaras contra gás nos rostos.
Pela tragédia virou ativista
Devido a duas ocorrências nos últimos meses falou-se muito sobre a violência policial. Em março, uma mulher de 38 anos, mãe de quatro filhos, foi assassinada durante um tiroteio entre policiais e suspeitos em uma favela do Rio de Janeiro. Os policiais jogaram o corpo dela no porta-malas, alegadamente para levá-la ao hospital. No caminho o porta-malas se abriu e a mulher caiu. Tendo ficado pendurada por um pedaço de roupa, foi arrastada por vários metros. O acontecimento foi filmado por um passante a causou grande indignação.
Em abril morreu um conhecido dançarino de um programa de TV durante uma troca de tiro entre a polícia e uma quadrilha de traficantes. De quem partiu o projétil que o atingiu ainda será periciado. Depois da morte do rapaz de 26 anos houve tumulto no bairro turístico de Copacabana.
“Os policiais brasileiros se entendem como soldados”, disse a estadunidense Elizabeth Martins, “não como amigo e ajudante”. Martin presenciou em 2007 como seu sobrinho de 30 anos foi baleado por um policial a uma distância de cinco metros. O tiro seguiu-se a uma discussão verbal. O sobrinho dela estava desarmado.

A FIFA aumentou a pressão
Em razão desta vivência, Martin se tornou uma ativista. Ela iniciou uma petição online contra a brutalidade da polícia do Brasil, para a qual faz propaganda em palestras fora do Brasil. Ela contou a história dela em uma conferência em outubro de 2013, em Aarhus, na Dinamarca.
Que a violência às vésperas da Copa do mundo tenha crescido se dá também porque o Brasil está sob pressão para realizar uma Copa sem contratempos. Martin diz: “A FIFA e seus patrocinadores são irresponsáveis. Eles colocaram o comando do Brasil sob pressão”. O Secretário-Geral da FIFA, Jérôme Valcke, disse ano passado, ao olhar as várias obras ainda em andamento, que o Brasil precisava de um chute na bunda. Agora é provável que a polícia seja ainda mais dura que até então, pois as agitações sociais e protestos poderiam deixar os visitantes inseguros e os furtos poderiam irritá-los. A FIFA contribui para a escalada [de violência].
Nos últimos meses dúzias de favelas foram ocupadas pela polícia no Rio, algumas até por militares [do exército]. Como parte das conhecidas pacificações as regiões onde muitos turistas da copa se hospedam devem se tornar seguras. Todavia, a desconfiança dos moradores das favelas contra a polícia é grande. Em alguns lugares os traficantes revidaram com força ainda maior. O conceito de violência contra violência parece não estar funcionando.
“Não se pode fazer omelete sem quebrar ovos” resumiu o secretário de segurança pública do estado do Rio de Janeiro seu conceito de segurança. Essa atitude é um grande problema, disse Martin. Os responsáveis pela segurança no Brasil acreditam que por causa dos turistas da copa do mundo eles devem matar os “maus”, aí entendidos criminosos e manifestantes. “Esse é um mal-entendido cultural fatal, porque reforça o ciclo de violência.” A iniciativa dela [Martin] contra a violência policial se chama: Não mate por mim.

Notas:

1 – NT:  “No Brasil, as Polícias Militares estaduais são as 27 forças de segurança pública que têm por função a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública, com exclusividade no policiamento ostensivo, no âmbito dos estados (e do Distrito Federal).4 Subordinam-se administrativamente aos governadores4 e são, para fins de organização, forças auxiliares e reserva do Exército Brasileiro, e integram o sistema de segurança pública e defesa social do Brasil, ficando subordinadas às Secretarias de Estado da Segurança em nível operacional. São custeadas por cada estado-membro e, no caso do Distrito Federal, pela União5 “. fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pol%C3%ADcia_Militar_do_Brasil

2 – Relatório em português sobre segurança pública:http://www.forumseguranca.org.br/storage/download//anuario_2013.pdf

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