Artigo da UNIPA: Colhendo o que se planta: autoritarismo, apartidarismo e anarquismo.

https://uniaoanarquista.wordpress.com/2013/06/19/colhendo-o-que-se-planta-autoritarismo-apartidarismo-e-anarquismo/

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Um recente documento do PSTU, intitulado “Anarquismo e socialismo: o individual e o coletivo nas mobilizações de massas”, tenta ser uma “defesa da democracia”, uma crítica ao anarquismo e ao mesmo tempo uma análise dos movimentos e protestos da juventude. O documento nem é uma análise séria do anarquismo e menos ainda dos protestos da juventude brasileira.

O documento mostra bem as contradições do marxismo reformista brasileiro. Apesar de ser do PSTU, o documento poderia ser subscrito por quase todos os partidos comunistas e socialistas do Brasil. Ele coloca que o conteúdo do anarquismo é o “liberalismo-individualismo” e, nesse sentido, é um texto tacanho da história do movimento operário e socialista. O anarquismo que o PSTU acusa não é o anarquismo que existe no Brasil, o bakuninismo ou mesmo o ecletismo. Ele ignora essas expressões e reduz o anarquismo a um mero fantasma saído dos seus delírios individualistas. Ignora que grande parte do sindicalismo mundial foi construído pelos anarquistas socialistas e coletivistas. Essa postura é típica da historiografia marxista: o partido único começa por se construir ao negar a pluralidade da história do movimento operário. Nesse aspecto, eles projetam na sua visão da história o autoritarismo que alegam combater: para estes, a história do movimento operário é a história do pensamento único, do marxismo. Essa análise tacanha, que qualquer historiador amador sabe hoje em dia que não corresponde a realidade, está nas raízes dessa invenção de um mal, que o texto pretende combater.

Existe um sentimento de negação do sistema político, dos partidos e de seu papel reacionário? Sim, já dissemos. As analises das eleições burguesas que realizamos mostram isso. O voto nulo e abstenção não são necessariamente sinal de despolitização, mas de uma ruptura profunda com o sistema político. É um indício de que as massas rejeitam os partidos políticos e as eleições burguesas, que desconfiam da mesma.

Quais as raízes desse sentimento antipartidário? Os partidos burgueses são máfias, o povo olha esses partidos como quadrilhas de criminosos e saqueadores. Mas e os ditos partidos da classe trabalhadora? Esses, PT, PCdoB, PSOL e PSTU, o que tem plantado? Os partidos reformistas e marxistas (com raríssimas exceções) tem uma relação instrumental com o pluralismo e a democracia. A democracia serve para expressar as posições do partido quando em minoria. Quando majoritários, essa democracia entra em contradição com as posições do partido e é atropelada sem cerimônias. E aqui está uma das raízes do “apartidarismo” que eles pretendem combater. Esses partidos têm relações extramente desrespeitosas e autoritárias com as bases nos movimentos sindical e estudantil. Eles atropelam as instâncias e sistematicamente traem as causas e lutas das categorias.

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É possível que esse sentimento crítico se apresente como desvio de direita? Tudo é possível. Mas a emergência do antipartidarismo e sua expressão nas manifestações é apenas um primeiro momento do processo de formação desse movimento de massas. O debate político está apenas começando. E está muito longe de ser um sentimento de direita. Existe um discurso conservador, que tenta despolitizar através do antipartidarismo? Sim. Mas também existe também outro discurso conservador que tenta despolitizar partidarizando-a, como se a mera existência de partidos fosse sinal de democracia e politização. Se assim fosse o Brasil seria o país mais democrático do mundo. Mas não é. De toda forma, essa rejeição apresenta uma oportunidade dos reformistas reavaliarem criticamente suas práticas burocráticas, sob o risco de serem atropelados pelo movimento popular, com bandeiras e tudo.

Ou seja, a reação autoritária de querer suprimir a participação dos partidos é a reação proporcional e inversa ao trabalho que tem feito estes partidos nos últimos anos de suprimir a ação das massas, de tutelar e reprimir essa ação (os partidos de direita, como PSDB, PMDB, e os reformistas também). Que esse sentimento se expresse primeiramente de forma autoritária, não é de se estranhar. Assim, os partidos reformistas estão colhendo o que plantaram: autoritarismo. Estão agora arcando com a reação legítima de que nem não quer aceitar a tutela reformista e as eternas decisões de cima para baixo, tão ao gosto das burocracias. O que gera isso não é o anarquismo, mas o autoritarismo de décadas, a burocratização e as traições das entidades e direções.

Qual a solução efetivamente anarquista? Bakunin, Makhno, Durruti sempre foram defensores da liberdade, mas também foram ferrenhos defensores do poder de decisão das bases. Um exemplo: os anarquistas sempre foram ferrenhos opositores da Igreja e da religião. Mas faz parte do programa revolucionário anarquista a liberdade religiosa. O mesmo acontece com a liberdade partidária.  É certo que todos devem ter liberdade de expressão nas manifestações populares. Todos devem ter o direito de portar suas bandeiras. Isso é uma necessidade: a autoridade se combate com a liberdade, o autoritarismo não vai levar a uma política revolucionária, mas sim à reformista e reacionária. Ao método autoritário de impor o apartidarismo para tentar combater o reformismo, o anarquismo se vale do método libertário de combater reformismo, por uma teoria, programa e forma de organização revolucionária de massas. A própria ação irá expurgar os recalcitrantes e conservadores.

Como combater o autoritarismo e o peleguismo do reformismo? Pela auto-organização e pela ação direta de classe. Nesse sentido, as ações de massa como as tentativas de tomada do congresso nacional e da ALERJ servem para diferenciar. Mas esse combate não pode começar nem terminar na rua. Ele tem de acontecer nas ruas e no cotidiano, nos locais de trabalho e estudo. Onde a juventude deve combater as posições dos partidos reformistas e sua feição autoritária sem usar de armas autoritárias, ou seja, sem voltar autoritarismo contra autoritarismo? Nas assembleias de base, nos locais de trabalho e nas associações e manifestações. Não é pela supressão do direito de portar bandeiras que se combate o autoritarismo e a burocracia reformista. Mas é realizando a ação direta classista e combativa que se faz essa diferença. Lutando para manter o poder nas bases de trabalhadores e estudantes, com a revogabilidade dos mandatos e a direção coletiva. Lutando contra a burocracia nos congressos de trabalhadores e estudantes, combatendo a burocracia e o autoritarismo no cotidiano.

É nesse sentido que convocamos os militantes e a juventude trabalhadora a construir uma tendência classista e internacionalista, única vacina contra a burocracia sindical e partidária reformista. As massas deram um grande passo: redescobriram a ação direta. Agora é fazer surgir do calor das batalhas a auto-organização de uma tendência classista e internacionalista pela criação de oposições de base.

Nem autoritarismo, Nem Reformismo!

Pela Auto-organização da classe trabalhadora e da Juventude!

* * *

União Popular Anarquista (UNIPA)

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