A mídia contará a verdade antes que a Copa do Mundo termine?

Traduzimos abaixo matéria de jornalista estrangeiro sobre os protestos durante a copa do mundo e sua experiência em uma de nossas manifestações.

Dave Zirin em 7 de julho de 2014 – 10:08 AM ET

Fonte: http://www.thenation.com/blog/180545/world-cup-ends-will-media-tell-truth

O presidente da FIFA Joseph Blatter estava se exibiu como um galo no fim de semana sobre a ausência de protestos em massa durante a Copa do mundo do Brasil. “Onde está toda essa agitação social?” ele perguntou com deboche, o qual juntamente com suborno e corrupção, tornou-se sua marca registrada. Então Blatter teve a cara de pau de dizer que no Brasil “o futebol é mais do que uma religião”, como se isso explicasse a ausência de milhões de pessoas marchando sobre seus estádios “padrão Fifa”. Sentimentos semelhantes foram expressos pelo ministro de esportes do Brasil, Luis Fernandes, que durante a copa do mundo a paixão pelo futebol tomou conta.

Essa posição tem ecoado continuamente na mídia dos Estados Unidos. O *Washington Post *tem trazido manchetes onde se lê no Brasil, sorrisos e festas tomaram o lugar dos protestos” e “Ricos e pobres de uma nação unidos por uma causa comum” Não é necessário escolher o* Post, *essa tem sido a linha em vários meios de comunicação nas últimas semanas.

Como é frequente na grande mídia, eles começaram com uma verdade inquestionável e escolheram tirar conclusões que coincidem com a própria perspectiva que incorporaram: a perspectiva moldada por Blatter, seus parceiros de transmissão e a realidade de luxo dos hotéis e veículos utilitários esportivos. De fato é verdade que os protestos de milhões de pessoas não tem acontecido durante a Copa do Mundo como ocorreu durante a Copa das Confederações em 2013. Mas a conclusão de que agora está tudo maravilho e “festas tomaram o lugar dos protestos” simplesmente não é
verdade. Eu recentemente retornei do Brasil e vi uma realidade diferente. O fato é que há protestos, greves e confrontos com a polícia acontecendo todo dia. Nas favelas há protestos contra a ocupação policial que acontece por
causa da Copa.

Se os protestos são bem menores que os de um ano atrás, isso é porque as ruas estão militarizadas a cada polegada, controladas por uma polícia militar que lança gás lacrimogêneo em qualquer grupo de pessoas que tentam se reunir e levantar demandas políticas.

Eu fui a um desses protestos “FIFA Go Home”, e houve um pavoroso exercício de intimidação do estado. A concentração era numa praça pública. Uma hora antes do início da marcha, a praça já estava cercada pela polícia anti-distúrbios com metralhadoras nas mãos. Tinha que se empurrar de lado e dizer “desculpe-me” para alguém com uma metralhadora e um distintivo para chegar lá. Isso foi assustado para mim, um jornalista gringo. Imagine se você é alguém com uma família, um emprego e uma vida que tinha que retornar para acompanhar a Copa.

Então, uma vez que nos reunimos a policia a cada poucos minutos poderia aleatoriamente pegar alguém da multidão de 500 pessoas e vasculhar sua mochila. A multidão podia gritar contra a polícia, mas cinco outros policiais cercavam o que estava basculhando, todos com seus dedos no gatilho de seu armamento automático. Um manifestante pegou uma corneta e tocou a música tema do Darth Vader de Jornada nas Estrelas, mas algo além daquilo havia pouco que se pudesse fazer. Então, quando a marcha finalmente começou, os manifestantes foram atacados com gás pela polícia militar. Um policial, como registrado pela Associated Press, disparou com munição real para o alto. Então a polícia anti-distúrbios avançou com seus cassetetes do tamanho de bastões de baseball.

Essa foi uma ação completamente horrível que provocou cânticos chamando FIFA a “nova ditadura do Brasil”. Em outras palavras, as manifestação não são maiores por causa da polícia militar, que criou uma realidade de terror para as pessoas expressarem suas discordâncias, tudo em benefício de Joseph Blatter.

Larrisa, uma ativista de São Paulo, explicou que o tamanho das manifestações para a *Al Jazeera* dizendo, “Alguns de nós estão presos, outros estão simplesmente temerosos. Durante nossos últimos protestos no Estádio do Maracanã, no Rio, quinze de nós foram presos e agora estão na cadeia. A polícia agrediu muitos de nós… eu amo futebol. Eu mesma jogo futebol. Eu apenas odeio toda a indústria em volta disso, que – em nome da Fifa – tem engolido comunidades inteiras aqui no Brasil. Eles pensam que eles podem fazer qualquer coisa em nome do futebol.”

Seria útil se a mídia dos Estados Unidos pudesse contar essa história: Uma população revoltada com a Copa, mas conformada por aterrorizada. Mas para contar essa história, é preciso ter conversado com brasileiros que não somente os que são seus taxistas e seus porteiros. Ainda há tempo na próxima semana, antes que a copa do mundo termine, para que a mídia tire os sapatos de couro, contrate alguns tradutores e conte a verdade sobre o que está acontecendo no Brasil. Com as Olimpíadas de 2016 vindo para o Rio, a ira e o descontentamento com esses megaeventos não está indo a lugar algum. Os próximos dois anos deveriam ser o momento em que a história dos brasileiros comuns é contada e recontada, em vez de ignorada em nome narrativas para fazer se sentir bem.

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